Desde o início do ano de 2020 a circulação de informações sobre a pandemia do novo coronavírus tem ampliado significativamente a compreensão sobre a necessidade do desenvolvimento da ciência no Brasil e no mundo. Consequentemente, a disseminação do conhecimento científico à população também aumentou em patamares talvez nunca antes vistos, graças à rapidez da comunicação proporcionada pela mídia, especialmente pelas redes sociais. A despeito disso, ainda se nota certa dificuldade de fazer com que a informação disseminada se traduza em aprendizado e, consequentemente, em ação, ou seja, em aplicação desse conhecimento.

A dificuldade de incorporação do conhecimento científico como parte da vida de todos ainda representa um importante gargalo para compreensão e a valorização da ciência no Brasil. Uma das razões para isto é, certamente, o fato de o conhecimento científico não estar devidamente incluído na educação básica. E o termo “devidamente” utilizado aqui não se refere ao fato de assuntos relacionados às descobertas científicas não estarem presentes no currículo das escolas (muitos estão), mas sim ao fato de a ciência não ser tratada como um dos motores da sociedade. Pode-se apontar como uma das razões para isto, o distanciamento entre universidades públicas (onde é realizada a esmagadora maioria das pesquisas brasileiras), escolas e formação de professores da educação básica. Por trás disso, está ainda a falta de apoio (ou de apoio adequado) dos governos para promover efetivamente esta aproximação. Embora a redução deste distanciamento venha sendo estimulada através de projetos de extensão em que professores e alunos da universidade realizam ações em escolas públicas, essas ações não são, no geral, planejadas de forma integrada entre escolas e universidades. Elas são, simplesmente, inseridas nos currículos ou como exigências impostas às universidades (especialmente nas federais) de forma quase que unilateral, sem que sejam realizados fóruns de discussão para organizar e operacionalizar as iniciativas entre as escolas e as universidades. Falta a costura entre escolas e universidades, que vem funcionando muito distanciadas umas das outras.

É importante que se construa uma base que permita a contínua e compreensiva abordagem da evolução científica e tecnológica para que toda a sociedade seja capaz de desenvolver senso crítico sobre como esta evolução impacta em sua vida. E isso só pode ser feito se escolas e universidades forem um contínuo, ou seja, quando operarem sempre em consonância uma com a outra.  Na área da saúde, por exemplo, a ciência vem evoluindo a passos largos e muitos dos conhecimentos já que podem ser tecnicamente aplicados envolvem aspectos éticos seríssimos, os quais precisam ser amplamente discutidos não só na comunidade científica brasileira, mas também nas escolas. Através das escolas, esse conhecimento pode atingir o âmbito social mais amplo no que concerne às nossas atitudes como sociedade. Alguns exemplos desses conhecimentos já desenvolvidos são a edição embrionária  e as análises genômicas amplas (como exoma, trancriptoma e o próprio genoma). A edição embrionária possibilita a alteração de genes específicos em embriões antes de sua transferência para o útero; já as análises genômicas permitem analisar as características genéticas dos indivíduos, podendo fornecer informações sobre a predisposição de um indivíduo para desenvolver ou manifestar determinadas doenças ou condições patológicas, por exemplo. Como podemos ver, esses assuntos são de extrema importância pois sua eventual aplicação pode ter implicações de dimensões inimagináveis para nossa sociedade. Talvez exista uma ideia de que a possibilidade de aplicação de alguns desses temas nos pareça ainda muito distante ou que nem sequer acontecerá, de forma que pode parecer perda de tempo discuti-los agora e, mais ainda, abordá-los na escola. No entanto, outros já são realidade e já vêm sendo indicados como úteis no diagnóstico de algumas doenças, mesmo que seu real potencial diagnóstico ainda não tenha sido definitivamente comprovado. Um outro exemplo é o uso de células tronco embrionárias humanas para pesquisa científica, assunto que se tornou objeto de lei sem que tenham ocorrido discussões prévias e suficientemente amplas na comunidade científica e desta com a sociedade. Essa tecnologia, como mencionado anteriormente, também envolve fortes questões culturais e religiosas por envolver o emprego de embriões. Portanto, é fundamental que discussões éticas e técnicas sobre essas questões sejam realizadas entre sociedade e especialistas para que se chegue a um ponto convergente. E para que isso aconteça, precisamos abordar esses conhecimentos nas escolas, promover discussões lá e desenvolver a compreensão de que todos têm direito ao conhecimento e que só ele permite que exerçamos de fato nossa cidadania.

Conforme abordado anteriormente, tornar o conhecimento científico parte da educação, seja ela formal ou informal, desmistifica a ciência quando esta é mostrada não como um tema distante a que poucos têm acesso, mas como parte de nós, da nossa sociedade, pois ela está presente em nossas atitudes diárias no momento em que abrimos um torneira, acendemos uma lâmpada, tomamos um remédio, usamos nossos aparelhos eletrônicos, fazemos nossos exames médicos, tomamos vacinas, acessamos nossas redes sociais… Todos essas ações, que hoje nos são tão corriqueiras, representaram enormes avanços tecnológicos que, por sua vez, nos permitiram avançar ainda mais na ciência e gerar ainda mais mudanças na sociedade. Mas para que isto se torne claro e a ciência receba seu devido valor, cientistas, universidades, escolas, comunidades, imprensa e as mais diversas instâncias da sociedade precisam se comunicar, precisam atuar juntas. Hoje, a melhor forma de convergir todos grupos é, certamente, através da escola, através da valorização da educação básica e de seus professores.

Nossa experiência: Como abordado anteriormente, muitos projetos de extensão vêm sendo desenvolvidos em escolas e vêm sendo muito importantes neste aspecto. Mas nosso grupo vem percebendo que, sem a incorporação dessas ações pelos currículos das escolas, essas iniciativas acabam por se mostrar muito paliativas ao invés de transformadoras. Percebemos que, muitas vezes, as escolas nem mesmo têm “interesse” em receber os projetos das universidades, pois eles não “cabem” nas suas grades curriculares. Os diretores das escolas relatam que, para receberem nossas ações precisariam deixar de dar algumas aulas (ou seja, teriam que deixar descumprir seus programas) ou manter alunos e professores por mais tempo na escola. Ambas as opções não atendem aos propósitos desses projetos de extensão, pois não concebemos como podemos trazer benefícios para as escolas fazendo com que os professores deixem de cumprir com as atividades programadas ou com que eles trabalhem ainda mais. Assim, após buscar diferentes estratégias para fazer com que as ações propostas trouxessem transformações a longo prazo, compreendemos que se não mudarmos as políticas relacionadas ao planejamento da educação básica no Brasil, as ações das universidades continuarão a trazer muito menos benefícios do que realmente podem trazer; os esforços continuarão por vezes excessivos e, ao mesmo tempo, insuficientes para gerar mudanças reais e duradouras. Concluímos, então, que precisamos nos unir como instituições na busca de mudar esse cenário. Precisamos agir para que o planejamento da educação básica no Brasil incorpore, de fato, as ações das universidades e a disseminação da ciência ao currículo das escolas. Para isto, é fundamental que este planejamento seja interprofissional e interdisciplinar de forma a trazer para as discussões as mais diversas visões, contribuindo para a formação do indivíduo como um todo.

Sabemos que os desafios da educação vão muito além do currículo; temos que considerar e incorporar às discussões todas as questões sociais que basicamente regem o planejamento da educação básica no Brasil. No entanto, no que se refere ao currículo, podemos, sim, incluir mudanças que trarão benefícios muito importantes a médio e longo prazo.

É importante, entretanto, que essa compreensão seja trabalhada não somente com a sociedade, mas também dentro da própria universidade. Devido a várias questões, a formação docente do ensino superior foi se tornando, ao longo do tempo, desvinculada do seu real papel de educador e pesquisador, ficando mais vinculada ao cumprimento de demandas burocráticas muitas vezes excessivas e que são impostas sem que seja considerada a diversidade das suas habilidades. Assim, é necessário realizar ações multidirecionais para que escolas, universidades, sociedade e poder público exerçam suas ações da forma funcional, coordenada e sistêmica, gerando um fluxo de retroalimentação entre si que culmina com a produção de benefícios definitivos para todos. Por onde começar? Nos parece que a universidade é a resposta.

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